PALAVRA DO LEITOR: Rememorar: trazer à memória, relembrar*.

Da editoria de Cultura

Raízes
Eles, mineiros de Governador Valadares, lá onde o Rio Doce passa. O mesmo rio que foi inundado pela lama depois do rompimento da barragem de Mariana e que levará anos para se recuperar desse crime…Atualmente, assistimos a outro crime: Brumadinho, também em Minas Gerais, dessa vez a lama atingiu o rio Paraopeba, vários trabalhadores e familiares.

Mas, voltando aos meus pais. Eles migraram muito jovens para São Paulo, viveram na cidade de Taboão da Serra, Jardim Record. Lembro quando eles comentaram sobre uma propaganda da Imobiliária Continental que havia passado no programa de rádio do Eli Correa, penso que nessa época o filho dele ainda era uma criança e não tinha pretensão de ser político.

foto: Jornal Ouvidor
foto: Jornal Ouvidor

Foi assim que conhecemos o loteamento do Parque Rodrigo Barreto em 1983. Eu tinha 7 anos e minha irmã 4. Após assinar o contrato fomos à churrascaria comemorar. Brincamos em um pato gigante de brinquedo, naquela época patos eram apenas animais ou brinquedos de criança, não representavam uma onda política paga pelo sistema capitalista.

Mudamos para Arujá. Primeiro vivemos na Avenida Expedicionários, uma pequena casa de aluguel com outras casas no quintal. Logo depois fomos para a Rua Bahia, um cortiço, várias casinhas e apenas um banheiro de uso comum. Quando li o livro O Cortiço, de Aluisio Azevedo, relembrei muito esse momento. O contraste daquela rua eram as mansões do outro lado, diziam que era do prefeito.

O Parque Rodrigo Barreto era um loteamento novo, pouquíssimas casas. Não tinha água encanada, iluminação pública, asfalto e nem ônibus direto para São Paulo. Era comum entre os moradores fazer um poço antes de começar a construção.

Meu pai estava cavando o poço quando recebeu a notícia pelo fiscal de obras: aquele não era o terreno dele. O fiscal olhou os documentos e apontou para um brejo mostrando-lhe a localização do terreno comprado. Surpreso e irritado, meu pai retornou à Continental e exigiu outro terreno, esse foi o primeiro dilema com a imobiliária.

A vida era bem difícil, meu pai trabalhava de vigilante noturno e minha mãe era do lar. Os dois cavaram um poço e construíram um cômodo para saírmos do aluguel. Um dia estávamos almoçando e apareceu um senhor com sua esposa. Ele alegou que haviamos “invadido” o terreno. Ambos mostraram a documentação de compra e venda. Assim se deu o segundo dilema com a imobiliária. Outra vez foram à Continental, lá descobriram que o terreno foi vendido para os dois. Após muitas discussões, novamente, nos mudamos. Recordo que a Continental pagou alguns materiais de construção, mas não teve esse negócio de processo, entrar com advogado? Isso era coisa de rico!

As dificuldades eram várias e diárias:. Lavar roupa e louça na bica d`água, alí onde hoje é um esgoto canalizado na Avenida D. Onde foi parar aquela água que brotava da terra e supria a necessidade dos moradores? Levávamos água no carrinho de mão, em pequenas panelas e baldes Tomávamos banho de caneca e a descarga da privada era feita com o balde. Uma vez ou outra aparecia o caminhão pipa da Prefeitura, mas nunca conseguia abastecer a todos. As ruas eram de terra, muita lama! Colocávamos plásticos nos pés para chegar com o sapatos limpinhos nos lugares.

Devido a falta de iluminação pública sair à noite só com laterna. Hoje tem asfalto esburacado porque não tem manutenção, iluminação pública pela qual pagamos uma taxa para manutenção e mesmo assim várias ruas ficam às escuras. Tem água encanada e esgoto também, mas é so chover que os bueiros não dão vazão a água, as ruas inundam com os lixos. Faltam lixeiras nas ruas e educação nos moradores.

Os ônibus também eram um grande problema, pois só saiam do centro. Isso não significa que hoje não seja. É só tentar ir para São Paulo no horário de pico que é possível ver o caos ou tentar passear no fim de semana e permanecer uma hora esperando o transporte. Os circulares eram precários e havia poucos ônibus na linha e a tarifa já era exorbitante.

Ficar doente também era um dilema. Havia um Pronto Socorro no centro de Arujá, porém, as consultas de rotina eram feitas em Guarulhos. Enfrentávamos a fila do INAMPS para agendar uma consulta que provavelmente seria para depois de 6 meses. Será que hoje é muito diferente?

Quanto a estudar, a única escola do bairro era a Escola Estadual do Parque Rodrigo Barreto, atualmente Pastor Carlos Richard Strautman. Tinha quatro salas de aula. Alí me deparei com uma professora que impediu minha entrada e discutiu bravamente com a direção. Na minha cabeça de criança pensei que ela não me queria ali. Tempos depois compreendi: a sala estava super lotada! Tinha 46 alunos! O problema não éramos nós: professora e aluna, era o descaso do governo que já existia. Hoje vemos salas de aula sendo fechadas. Seria novamente uma tentativa de manter salas superlotadas?

Quanto ao ennsino superior, até hoje isso não chegou na cidade. Na época diziam que pobre não fazia faculdade, isso era coisa de rico. Interessante que depois de 36 anos escuto isso de um certo Ministro da Educação! Penso: Eles estavam errados e esse senhor também! Somos as primeiras, minha irmã e eu, da família materna que concluiram o ensino superior.

Meu pai não viu o progresso e nem o retrocesso que vivemos, faleceu no trabalho após 8 anos da compra do terreno. Faltavam 5 prestações para quitar a compra do terreno. Minha mãe continua uma guerreira.A casa ainda não está terminada, mas guarda um mundo de histórias em cada bloco.

Essa é a história do meu país, minha cidade, meu bairro, minha família!
Qual é a sua história?
Conte-nos!
Contribua para que nossa memória não caía no esquecimento!
Precisamos nos lembrar quem somos e de onde viemos.

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